Carboidrato pré-exercício: evitar ou consumir?

Carboidrato pré-exercício: evitar ou consumir?
Atletas raramente participam de competições (performance) no estado pós-absortivo (jejum) por conta do comprometimento sobre os estoques de energia, essenciais para otimização e manutenção da tarefa esportiva. Os estudos publicados nas últimas décadas indicam que as intervenções nutricionais mais benéficas para performance são aquelas que aumentam ou preservam os estoques de carboidratos, nas formas de glicogênio muscular e hepático. Em outras palavras, consumir carboidratos horas antes de um evento esportivo competitivo é uma das condutas capaz de maximizar os estoques de glicogênio e modular sua utilização durante o exercício.

Em termos gerais, o consumo de carboidratos resulta em aumento da glicemia que, por sua vez, resulta em liberação de insulina pelo pâncreas e bloqueio captação de glicose hepática (Marmy-Conus & Fabris, 1996; DeFronzo et al, 1983). A insulina age como um “gatilho biológico” no tecido muscular que resulta na translocação de GLUT4 e consequente captação e oxidação de glicose (Costill et al, 1977; Coyle et al, 1997; Febbraio et al, 1996). Simultaneamente, a insulina pode reduzir a oxidação de gordura e a disponibilidade de ácidos graxos circulantes (Horowitz et al, 1997). Entretanto, o aumento da captação de oxidação de glicose diminui a oxidação lipídica mesmo na presença de altas concentrações intracelulares de ácidos graxos livres (Coyle et al, 1997). Possivelmente, isto ocorre por conta da diminuição do transporte de ácidos graxos para a mitocôndria (McGarry et al, 1977).


Os efeitos da ingestão de carboidratos antes do exercício sobre o desempenho esportivo foram estudados pela primeira vez por Foster et al. (1979). Os autores observaram redução da capacidade aeróbia (ciclismo a 80% do VO2 máximo até a exaustão) na comparação entre carboidratos e água. Este artigo tornou-se a base de uma recomendação que duraria muitos anos: “evitar carboidratos 1 hora antes do exercício”. Alguns anos depois, Koivisto et al. (1981) publicaram um estudo reforçando a mensagem de que o consumo de carboidratos deveria ser evitado 1 hora antes do exercício. Nesta última publicação, concluiu-se que a ingestão de glicose 45 minutos antes do exercício resultou em hiperglicemia e hiperinsulinemia no início do exercício, seguido pelo quadro de hipoglicemia durante o exercício. Foi sugerido que esses efeitos poderiam ser evitados com o uso de um carboidrato de baixo índice glicêmico (IG). Nos anos seguintes, muita atenção foi dada a esse fenômeno que ficou conhecido como “hipoglicemia reativa” ou “hipoglicemia de rebote”. Em termos gerais, assumiu-se que a ingestão de carboidratos antes do exercício poderia causar hipoglicemia, supressão do metabolismo lipídico, degradação do glicogênio e, portanto, redução de desempenho esportivo.

Após estes estudos iniciais das décadas de 1970-80, diversos estudos investigaram os efeitos da ingestão de carboidratos antes do exercício sobre o metabolismo e desempenho esportivo. Os resultados de todos esses estudos são variados, fato que muito provavelmente se atribui aos diferentes tipos de carboidratos utilizados, protocolos de exercício, intensidade de treinamento variada, amostra (treinados vs. não treinados) e diferentes protocolos de consumo. Como todos esses fatores podem afetar os resultados, torna-se muito difícil comparar os achados e determinar a causalidade exata dos diferentes efeitos.

Com o intuito de esclarecer esses resultados, foi realizada uma sequência de estudos com o objetivo de investigar os efeitos do consumo de carboidratos antes do exercício (Jentjens & Jeukendrup, 2003; Moseley et al, 2003; Jentjens et al, 2003; Jentjens & Jeukendrup, 2002; Achten & Jeukendrup, 2003). Todos os estudos tinham um desenho semelhante e apenas 1 variável sendo alterada de cada vez (por exemplo, o tempo de ingestão ou tipo de carboidrato). Cada estudo tinha uma condição de controle na qual 75 g de glicose foi ingerida 45 minutos antes do exercício. O protocolo de exercício era constituído de 20 min em estado estacionário a 70% do VO2 máximo seguido de um teste de desempenho contrarrelógio com duração de aproximadamente 40 minutos. Todos os voluntários eram treinados. A conclusão geral desses estudos foi que, embora em alguns casos a hipoglicemia tenha se desenvolvido, não houve relação entre baixas concentrações de glicose sanguínea com queda de desempenho esportivo.

Portanto, com base nas evidências disponíveis, parece não haver razão para não consumir carboidrato antes do exercício, pois não há qualquer efeito deletério sobre o desempenho esportivo. Indivíduos propensos a desenvolver hipoglicemia reativa e/ou sintomas frequentemente associados a ela podem encontrar soluções para evitá-la no ajuste dietético e na suplementação intra-treino. Além disso, fica claro que em se tratando de carboidratos e desempenho esportivo, o glicogênio muscular é muito mais determinante que a refeição pré-treino. Em outras palavras, é mais recomendando garantir a reserva de energia do que esperar o momento antes do exercício.



Texto extraído do site Vitafor Science

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